Script – A Babel Dublada

D1: – Santa Tartaruga! Hakuna Matata! Pelos poderes de Grayskull, eu tenho a força!
D2: – Como você pode falar se não tem um cérebro?! Você é um brinqueeeedo!
D1: – Eu digo o necessário, somente o necessário!
D2: – Meu Nome é Kadu Maverik, do Frio de Janeiro, e tu?
D1:- Pois é, pois é, pois é! Oi, eu sou a Dory!
D2: – Slot quer chocolate! Na cabeça xampu, lave bem o seu pé!
D1: – Oi, eu sou a Dory! Eu sofro de perda de memória recente!
D2: – Ai, cale-se, cale-se cale-se, assim você me deixa louco! Desonra pra tu, desonra pra tua vaca…! E tem mais, é leviôsa, não leviosá!

Um diálogo um tanto esquisito para se começar um texto, não é? 😁 Você reconhece alguma frase? E saberia me dizer a quais filmes elas pertencem? Aqui, eu as tirei de contexto propositalmente e recriei um diálogo bem curtinho mesclando algumas falas marcantes justamente para provocar uma estranheza e despertar a curiosidade pro nosso assunto de hoje: A e a para Aspectos importantes que ocorrem por trás da e quando feitas por profissionais não qualificados, assemelham-se ao exemplo do diálogo acima, uma torre de babel, onde não se vê sentido e nem emoção, porque o texto pode estar mal traduzido/adaptado e consequentemente mal interpretado. (Tipo essas dublagens de Miami!🤭)

Então, cá estou eu (de novo) para enaltecer mais uma vez esses profissionais que abrilhantam a arte da e colocam a nossa versão brasileira no topo do pódio. E como boa museóloga e fã de que sou, não me contento só em saber quem são as vozes por trás dos personagens, eu quero mais. Quero saber de que forma acontecem os processos de e , quais são suas responsabilidades e tudo que envolve o bastidor de uma até que ela fique pronta para o público consumir. Pois, estes profissionais contribuem e muito para o sucesso de uma produção audiovisual e por vezes esquecemos de prestigiá-los. E quem é curioso, anseia por conhecer esses rostos também anônimos. Afinal: “Uma boa começa com uma boa .” (Hélio Porto – e tradutor) E acrescento: uma boa também faz toda diferença.

Portanto, por trás de uma dublagem bem sincronizada, perfeitamente interpretada e com falas memoráveis, há bastante trabalho e que não podemos esquecer, nunca. O processo de adaptação para a versão brasileira conta com a dedicação, estudo e empenho de e que farão o melhor para que o produto audiovisual saia excelente e mexa com as nossas emoções. E isso fica claro quando despertamos para o fato de termos decorado e nos emocionado com falas, discursos ou mesmo as canções que reproduzimos no mundo real. Ou ainda quando não conseguimos imaginar outro ou outra para interpretar tal personagem para o qual foi escalado, dando a certeza para quem assiste do encaixe perfeito entre voz e interpretação. Méritos de bons e . Não é?

Se a dublagem brasileira é tão reconhecida como espetacular, esses profissionais são de suma importância para que isso ocorra e muitas vezes ficam escondidos por trás da dublagem que traduziram ou dirigiram, pois nem todos que ocupam essa função são ou estão dublando aquele produto no momento, mas merecem nossos aplausos, pois sem eles não tem como dublar. Logo, eles são os primeiros a entrarem nesse processo.

O tradutor é o responsável não só por traduzir o texto original, mas por adaptá-lo ao nosso idioma, preocupando-se com a sincronia labial e o vocabulário ideal a ser usado de acordo com as características do produto original. Por isso, é importante que este entenda sobre dublagem para que o texto fique o mais orgânico possível. Um bom tradutor é um excelente conhecedor de sua língua materna e da qual ele estuda, dando-lhe ferramentas para adaptar bem o texto para a linguagem oral (no caso do audiovisual). Ao assistir o produto estrangeiro e com o texto original em mãos, faz uso de toda sua expertise, consulta dicionários e colegas de outras áreas profissionais para enriquecer seu repertório com o objetivo de imprimir verdade e coerência em seu texto. Por exemplo: um de época ou que se passe em museu, escola, hospital etc. requer um vocabulário específico, tanto da linguagem oral usada na época como os jargões de cada área buscando a verossimilhança. Aí entra o trabalho do tradutor para dublagem, que vai além de somente traduzir, requer muita atenção e dedicação por causa dessas especificidades da dublagem.

Já o em dublagem que também assiste o produto audiovisual por inteiro é o responsável por decupá-lo, ou seja, dividi-lo em loops (anéis) de 20 segundos para ajudar na realização da dublagem no estúdio. Feito isso, o escala o elenco que será dirigido por ele, dublando o seu personagem de acordo com a quantidade de vezes que seu personagem aparecer em cena. Por isso a divisão em loops. Os , hoje em dia, dublam sozinhos na bancada e não assistem ao por inteiro como o , eles recebem o script adaptado e dublam ali na hora. Caso ocorra um estranhamento entre o scrip e a labial, é comum que e diretor façam adaptações no momento da dublagem, visando corrigir a tradução e encaixando na labial de modo ideal. Ao conduzir o em cena, o diretor tem a missão de tirar o melhor dele para que seja colocado a serviço do personagem que está dublando.

O trabalho de tradutor e diretor devem andar juntos, normalmente quando isso ocorre é certo de que a dublagem será de excelente qualidade e o texto adaptado não precisará ser quase que refeito na hora da dublagem. No início da dublagem e até hoje permanece assim, há muitos que são e e isso eleva o nível da produção e facilita muito o trabalho de todos. Mas, com a ampliação do mercado de trabalho e mudanças no processo de dublagem, por vezes esses profissionais não se encontram no estúdio.

Agora, eu trarei três personagens da nossa história da dublagem e um pouco de suas trajetórias para que você conheça quem foram os responsáveis por traduções/adaptações de diálogos e canções e que também atuaram na de produções que com certeza você ama. Ao primarem pela excelência em seus trabalhos, transformaram-os em referências e obras inesquecíveis da dublagem brasileira. E por tamanha qualidade e empenho destes profissionais eles merecem sempre os nossos aplausos e reconhecimento.  

: , , , professora de , especialista em tradução inglês – português pela PUC-Rio, fundadora da ESTRADA (Escola de Tradução para o Audiovisual) e autora do livro: O Processo da Tradução para a Dublagem Brasileira – Teoria e Prática. Professora de inglês desde 1987, na década de 1990 chega ao Rio de Janeiro e concilia sua carreira com o teatro infantil. Logo depois, realiza cursos de dublagem, tendo os dubladores Alexandre Lippiani (1964-1997), primeira voz do Woody em Toy Story 1 e Newton Da Matta (1946-2006), voz oficial de Bruce Wilis e Lion em Thundercats, como seus professores. Em 1997 ingressa na como e e ainda com passagem por outros estúdios como: , Drei Marc, Herbert Richers, Dublamix, Gemini Media, Som de Vera Cruz, SPtelefilm e Doublesound, Voice Brazil e MG Estúdios. Na tradução de livros de literatura trabalhou nas editoras Fundamento e Rocco. Na dublagem ela empresta sua voz ao personagem Hantaro e a Senhorita Belo de As Meninas Super Poderosas. Das suas traduções para o audiovisual temos: A Casa do Mickey (2005-2016), Zack & Cody: Gêmeos em Ação (2005-2008), A Era do Gelo 3 (2009), Meu Nome é Khan (2010), Game of Thrones (2011-2015), Ponte dos Espiões (2015) e Cidades de Papel (2015). Tudo isso faz de nossa artista uma das mais gabaritadas na atualmente.

(1932-1989): , , diretor e dublador. Em 1959 produziu a A Princesinha para a TV Paulista, em 1960 para mesma emissora produziu Oliver Twist e muitos outros trabalhos. Já consagrado como e , em 1965 foi responsável por dirigir a primeira da , chamada Ilusões Perdidas e escrita por Ênia Petri e ainda dirigiu ao lado de Sérgio Britto e Fernanda Torres a Paixão de Outono (1965), escrita por Glória Magadan. Em 1974 atua como diretor do infanto-juvenil Regina e o Dragão Dourado, filmado no Brasil e no Japão, que contou com a presença da dubladora Cecília Lemes (voz da Chiquinha) na personagem principal, Regina e os dubladores: (voz do Chaves) como o Papagaio Gaio, (voz de Rainha Ahames em Changeman) como a Lebrinha, (voz do Pica-Pau) como o Texugo Koussui e Borges de Barros (voz de Gigars em Os Cavaleiros do Zodíaco) como a Raposa Zurui. Como dublador ficou conhecido por emprestar sua voz ao Gregory Peck e por ser a primeira voz de Oninin Dokusai em Jiraiya. Na direção fez carreira nos estúdios: , e dirigindo inúmeros trabalhos. Nesta última ainda atuou como coordenador de dublagem e dirigindo as séries japonesas () fenômenos de audiência à época na extinta . Toda sua trajetória e ampla experiência artística anterior a dublagem contribuiu para sua memorável carreira como diretor e dublador. Além do legado fica a saudade.

(1923-2017): Ator, , dublador, tradutor e diretor. Em 1945 iniciou sua carreira no atuando como e logo depois como produtor e diretor de , com passagem pelas principais emissoras, tais como: Rádios Tamoio, Tupi, Guanabara, Mundial, Mayrink Veiga e a MEC. Atuou em teatro e na foi ator, produtor, diretor e redator de programas nas extintas TV Tupi e TV Continental. Na Rede Globo atuou nas novelas Irmãos Coragem (1970) e Pai Herói (1979). No ano de 1961 tem início sua carreira na dublagem, um dos pioneiros desta arte, dublou, traduziu e dirigiu muitas obras com passagem pelos estúdios: Rio Som, , , , e . Dos personagens mais conhecidos temos: a primeira voz brasileira do Pateta, Professor Ludovico, Senhor Olivaras em Harry Potter e o primeiro narrador em SuperAmigos. Das suas traduções e direções temos: Pinóquio (1966), Mogli (1968), Bambi (1969), Aristogatas (1971) e Dumbo (1972). Das traduções, incluindo as canções e direções temos: O Cão e a Raposa (1982), As Peripécias do Ratinho Detetive (1986), Oliver e Sua Turma (1989), A Família Dinossauro (1991), A Bela e a Fera (1992), Aladdin (1993), O Rei Leão (1994), Pocahontas (1995) e outros. Das direções e dublagem temos: A Espada Era a Lei (1969) com o personagem Sir Pelinore, A Pequena Sereia I e II (1990/2000), onde também realizou a tradução, com o personagem Chef Louis.  Com um histórico magnífico dentro das Artes, nosso artista deixou o exemplo e um legado enorme para nós e muita saudade. 

Bom, esses foram só alguns dos profissionais com alguns dos seus brilhantes trabalhos realizados na dublagem. Eu gostaria de poder falar de todos, mas aí a coluna de hoje se tornaria um livro! (hahahaha) Em breve eu volto para falar mais desses e de outros artistas da nossa versão dublada. Gostou do texto de hoje? Qual frase, música ou diálogo te marcaram? Lembra de mais nomes da nossa versão brasileira que são excelentes na tradução e direção? De quem você é fã? Conta pra mim aqui abaixo nos comentários e compartilha com seus amigos! Até semana que vem!

Compartilhe:

Especialista em Gestão Cultural, Museóloga e Educadora. Amante das artes, defensora do patrimônio, propagadora de memórias e uma entusiasta da dublagem. 💛😊

Sobre o Autor

Especialista em Gestão Cultural, Museóloga e Educadora. Amante das artes, defensora do patrimônio, propagadora de memórias e uma entusiasta da dublagem. 💛😊

Visualizar Artigos