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Fábio Lucindo: Texto OITO no Versão Dublada

Filhos de dubladores quando adultos, precisam decidir se NÃO serão dubladores.

“Cresci no estúdio” é uma das frases mais comuns de se ouvir daqueles que seguem uma linhagem dentro da dublagem.

Há inúmeras explicações/justificativas para essa realidade.
(Além do mais óbvio de que muitos casais se formam dentro do estúdio, claro).

No campo do singular concreto, filhos de dubladores estão fisicamente presentes quase que diariamente transitando pelos estúdios, são celebrados por todos os outros colegas e com isso adquirem um capital social dentro da dublagem infinitamente superior, íntimo e afetivo que qualquer outra criança “forasteira”. 

É realmente muito fofo dirigir uma criança que ainda nem foi alfabetizada gravando suas primeiras falas. É sim uma experiência marcante para todos. Para os pais orgulhosos (com razão), para o diretor (que incrementa seu elenco com uma criança que vai entregar um bom trabalho sem gerar grandes problemas dentro do estúdio) e para a própria criança que, mesmo sem entender direito o que está fazendo, já se acostuma com um ambiente que pode ser tanto encantador quando hostil quando não se está familiarizado.

Já no campo da abstração, o jovem dublador, que ainda nem sabe se quer fazer isso da vida, carrega em si a manutenção de um legado, o sobrenome do papai ou da mamãe. Cabe a ele, no futuro, refletir sobre isso e decidir se potencializa a inércia na qual foi inserido ou se busca outros rumos. 

Pelo o que tenho observado, poucos são aqueles que optam pela ruptura. 

Os motivos que levam a essa (não) decisão são pessoais, claro, mas o quanto eles são espontâneos tendo em vista que se trata de algo já tão assimilado, é algo que me interessa sim, e posso até especular sobre, mas não mais que isso.
(Ou seja, é difícil falar sobre nepotismo na dublagem sem tocar no tema do trabalho infantil, mas isso fica pra outro texto).

Barolli, Bezerra, Keplmair, Andreatto, Ferreira, Noya, Pissardini, Sodré, Kumode, Campos… exemplos não faltam e extrapolam até mesmo a função de dublador, em muitos estúdios os profissionais da pré e pós produção também possuem algum elo familiar com outros integrantes da indústria.

Atualmente o nepotismo apenas é considerado crime no âmbito de cargos públicos. Já no meio privado ele se apresenta como base fundamental da manutenção da propriedade.

Ou seja, a culpa não é da dublagem, na real nem há culpa alguma. É assim que nos organizamos desde os primórdios dessa instituição que veio a se chamar família. Quem começou essa onda de favorecer parentes fora do campo privado, na administração pública, foi a igreja católica mesmo, essa queridona.

A dublagem é só mais um campo de trabalho como outro qualquer, este fenômeno ocorre em absolutamente todos, com maior ou menor intensidade. Explica, mas não justifica, eu sei. 

O resto são seres humanos “tentando sobreviver” dentro de uma lógica primitiva de preservação da espécie somada ao desejo de realização pessoal através do consumo e acúmulo infinito.
(Eu justificaria assim pra não colocar a culpa nas pessoas e sim no capitalismo).

Como cada um se organiza e posiciona perante tal realidade não cabe a mim julgar, mas eu julgo.
(Quase todo mundo é comunista dentro de casa, mesmo que renegue ou não saiba).

Avante!

Por fim, um poema.

Zodja amava Gilberto que amava Rosa
que amava Robson que amava Camila que amava Nair 
que era amada por todo mundo.
Hermes foi para os Estados Unidos, Melissa e Alfredo para o Mosteiro dos Jerônimos.
J C Guerra morreu, que desastre! Marly já é vovó,
Araken também se foi e, Luli, quer casar com Fábio P. F. L. Lucindo que ainda não tinha entrado na história?

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fabio.lucindo@versaodublada.com.br


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